A verdadeira felicidade

“Eis a verdadeira felicidade: não ter ambição alguma e trabalhar como um escravo, como se tivesse todas as ambições. Viver longe dos homens, não precisar deles e amá-los. Estar no Natal e, depois de ter comido e bebido bem, escapar sozinho para longe das armadilhas, ter em cima as estrelas, a terra à esquerda e à direita o mar; e subitamente verificar que no coração a vida praticou seu último milagre: que ela se transformou em um conto de fadas.”

O desejo de Buda

Sim, era um desejo: Buda teve o desejo. Quando buda disse: “Não deixarei este lugar. Não o vou deixar, a não ser que consiga a iluminação”, isso era um desejo. E, com esse desejo, um círculo vicioso se instalou. Mesmo para buda, ele se instalou.
Buda não pôde obter a iluminação durante muito tempo, por causa desse desejo. Por causa dele, buscou e buscou duante seis anos. Fez todo o possível, tudo quanto pôde. Fez tudo, mas não se aproximou sequer uma polegada. Permaneceu o mesmo, ainda mais frustrado. Tinha deixado o mundo, renunciado a tudo, por amor da realização, e nada conseguira. Durante seis anos, continuamente, todos os esforços foram feitos, mas nada obtido.

Então, um dia, nas proximidades de bodh gaya, ele foi tomar um banho no niranjana (o rio que ali existe). Estava tão fraco por causa do excesso de jejuns, que não podia sair do rio. Ficou ali, então, junto à raiz de uma árvore.

Tão fraco estava, que nem podia sair do rio! Veio-lhe à mente o pensamento de que, se tão fraco se tornara a ponto de não poder sequer cruzar um pequeno rio, como poderia, então, cruzar o grande oceano da existência?

Então, a partir desse dia em particular, mesmo o desejo de realização tornou-se fútil. Ele disse: “Chega!”
Saiu da água, sentou-se sob uma árvore (a árvore bodhi). Naquela noite o próprio desejo de alcançar tornou-se fútil. Ele desejara o mundo e descobrira que o mundo não passava de um sonho. E não apenas um sonho – mas um pesadelo. Durante seis anos, continuamente, desejera a iluminação, e também aquilo provara ser um sonho, apenas. E não apenas um sonho: provara ser um pesadelo ainda mais profundo.

Ele estava completamente frustrado, nada ficara a desejar. Tinha conhecido muito bem o mundo – conhecera-o muito bem – e não podia voltar para o mundo. Ali, nada havia para ele. Conhecera o esforço das chamadas religiões (de todas as religiões importantes da índia); praticara todas as suas técnicas, e nada conseguira com isso. NAda mais havia a tentar, agora, não restava qualquer motivação, assim ele deixou-se cair no chão, junto da árvore bodhi e durante toda a noite ali permaneceu – sem qualquer desejo. Nada ficara para desejar; o próprio desejo tornara-se fútil.

Pela manhã, ao acordar, a última estrela ia desaparecendo. Buda olhou para a estrela, e pela primeira vez em sua vida, seus olhos não tinham qualquer nuvem, porque ele estava sem desejo. A última estrela ia desaparecendo… e, ao desaparecer a estrela, algo murchou dentro dele: o eu (porque o eu não pode existir sem desejo). E ele tornou-se iluminado!

Essa iluminação veio no momento em que não havia mais desejo. E isso fora evitado, durante seis anos de desejo. Realmente, o fenômeno ocorre apenas quando estás fora do círculo. Assim, mesmo buda, por causa do desejo de iluminação, teve de perambular, inutilmente, durante seis anos. Esse momento de transformação – Esse saltar para fora do círculo, para fora da roda da vida – só vem, só acontece, quando não há desejo. Buda disse: “Consegui isso quando não havia mais a mente que desejava conseguir; encontrei quando não mais havia busca. Isso só aconteceu quando cessou de haver esforço.”

Erros

Você pode ter observado — pode ser que a observação não tenha sido muito aguda, profunda e penetrante, mas deve ter observado — observado num estado nebuloso de mente, vago, sombrio, esfumaçado, mas deve ter observado que você sempre comete o mesmo tipo de erro, repetidamente. Que tristeza! Você nem pode inventar erros novos. Que pouco original e medíocre estado de mente! Hã? — você nem pode inventar novos erros para cometer, e continua cometendo os mesmos erros. Você é como uma vitrola quebrada. Ela continua repetindo a mesma linha outra, outra e outra vez.Já observou que você continua a cometer o mesmo erro? — nos relacionamentos, no amor, na amizade, no trabalho, você continua a cometer o mesmo erro. E continua a ter esperanças de que desta vez as coisas serão diferentes. Elas nunca serão — porque você é o mesmo.

Como as coisas podem ser diferentes? Você está tendo esperanças contra a esperança. Mas a mente é estúpida. Você continua esperando, e sabe muito bem, lá no fundo, que isto não é possível, porque você vai frustrar. Você se apaixona e tudo é tão romântico, tão poético. Mas esta não é a primeira vez que isso acontece. Já aconteceu muitas vezes. Muitas vezes você se apaixonou e muitas vezes o mundo foi poético e romântico. E o mundo se tornou um sonho e tudo era lindo — e depois tudo ficou feio. A mesma beleza se tornou feia, o mesmo sonho se tornou um pesadelo, o mesmo céu se tornou um inferno. E tem sido assim repetidamente.Mas você se apaixonará outra vez e novamente se esquecerá — e o mesmo acontecerá! Você é uma repetição, e a menos que pare de ser repetitivo, não existe possibilidade de mudança.

Como é que se pode parar esta repetição? Primeiro, é preciso compreender que ela está presente. Esse é o passo básico. É preciso compreender que esta repetição está aí. Você está funcionando como um autômato, não como uma pessoa — exatamente como um mecanismo, repetindo. A pessoa nasce em você somente quando você não é mais uma máquina, quando você começa a se mover de maneiras novas, a se mover em novos caminhos, a caminhar em direção ao desconhecido. Você sempre se move dentro do conhecido: faz de novo o mesmo que já havia feito, e fica cada vez mais hábil em fazê-lo, fica perito em cometer os mesmos erros outra e outra vez. Você se torna previsível.Nenhum ser humano, se é realmente um ser humano, pode ser previsível. A astrologia existe —jyotish existe — por causa de sua vida mecânica; caso contrário, ninguém poderia prever o momento seguinte. Mas ele pode ser predito. De dez mil pessoas, nove mil novecentas e noventa e nove são previsíveis.

Assim, a primeira coisa a compreender é que você é uma repetição. Será muito terrível para o ego, porque você sempre pensou que fosse original; você não é. A mente nunca é original. Ela é sempre medíocre, porque a própria estrutura da mente é o acúmulo de conhecido.