Cria o hábito de observares regularmente o processo universal da mudança; fá-lo com frequência, e instrui-te plenamente neste ramo do estudo; não há nada que mais elevação dê ao espírito.
Olha do alto os inúmeros rebanhos de humanos com as suas misteriosas cerimônias, as suas variadas navegações nas tempestades e na acalmia, e todo o xadrez das suas idas e vindas e ajuntamentos. Continua, depois, a considerar a vida das gerações passadas; e depois a vida daqueles que ainda estão para vir, e, até no presente, a dos rebanhos dos selvagens longínquos. Em resumo, reflete sobre as multidões que ignoram mesmo o teu nome; quantos mais o terão esquecido rapidamente; quantos, talvez agora a elogiar-te, não te irão injuriar muito em breve, e que, portanto, a memória, a glória e tudo o mais junto são coisas de nenhum valor. Muitas das ansiedades que te perturbam são supérfluas; sendo apenas criações da tua imaginação, podes ver-te livre delas e expandir-te para uma região mais ampla, deixando o pensamento varrer todo o universo, contemplando os ilimitados campos da eternidade, notando a rapidez da mudança em cada coisa criada, e contrastando o breve espaço de tempo entre o nascimento e a dissolução com as infindáveis eternidades que precedem um e o infinito que se segue à outra. Num instante apenas, tudo isto que agora tens diante dos olhos terá já desaparecido. Aqueles que testemunham a sua passagem seguirão o mesmo caminho pouco depois; e então que escolha haverá para fazer entre o avô mais velho e o bebé que morre no seu berço?
Em breve a terra cobrir-nos-á a todos. Depois, a seu tempo, a terra também mudará; mais tarde, o que resulta desta mudança mudará também, por sua vez, incessantemente, e assim tudo tomará de novo, e por sua vez, o seu lugar, até ao fim do mundo. Deixar o espírito repisar nestas vagas giratórias de mudança e transformação é conhecer um desprezo por todas as coisas mortais.
Pensa muitas vezes como toda a vida de hoje é uma repetição do passado; e observa que ela também pressagia o que está para vir. Revê os muitos dramas acabados e os seus cenários, todos tão semelhantes, que tens conhecido na tua experiência, ou da história passada: todo o círculo da corte de Adriano, por exemplo, ou a corte de António, ou as cortes de Filipe, Alexandre e Cresus. A representação é sempre a mesma, só os actores mudam.”